VALE DOS SONHOS
O projeto desportivo do Independiente del Valle que poucos conhecem
Na atualidade, quando falamos de projetos desportivos ocorrem-nos, de imediato, exemplos como o do City Group, Redbull, Brighton ou Midtjylland, modelos com origens, ideias, caminhos e objetivos distintos.
É na quebra do padrão tradicional que se destaca o Independiente Del Valle (IDV), conhecido no seu país de origem por ser “un club diferente”.
O projeto IDV surge pela mão do atual proprietário, Michel Deller, empresário equatoriano que comprou o Independiente José Terán em 2005 (posteriormente IDV), após a rejeição da sua proposta revolucionária de investimento no futebol formativo, pelos proprietários do Barcelona de Guayaquil, clube de topo a nível nacional.
O caminho não foi fácil, a filosofia formativa não projetou de forma imediata o clube para o sucesso, mas foi criando bases económicas e desportivas, para que, em 2010, o clube já tivesse alcançado duas promoções e se encontrasse, pela primeira vez , no escalão principal do futebol equatoriano.
À medida que o clube cresceu dentro da pirâmide local, o modelo foi evoluindo, tornando-se cada vez mais eficiente. A ideia era simples, dotar o clube da infraestrutura adequada, sobretudo através da construção de uma academia, o “Valle de los sueños”, que garantisse aos jovens atletas habitação, alimentação, ensino e treinadores de primeiro nível.
À primeira vista poderia parecer apenas um projeto formativo dentro dos padrões habituais, ideia que desvanece quando somos confrontados com a informação de que o clube, durante esta etapa, destinou continuamente entre 40 a 50% dos seus orçamentos anuais ao desenvolvimento das camadas jovens, através de melhoramentos infraestruturais e metodológicos.
Desportivamente, entre 2010-20 o clube estabilizou-se no escalão e ascendeu gradualmente a candidato ao título nacional, uma vez que desde 2013 até hoje, apenas por uma vez ficou fora do top 4. Neste período, nas competições continentais destaca-se o vice campeonato da Libertadores em 2016 (frente ao Atlético Nacional) e a vitória na Copa Sul Americana de 2019 (frente ao São Paulo FC). Este sucesso desportivo potenciou encaixes importantes ao clube, entre os quais as vendas de atletas como Gonzalo Plata (ex Sporting), Léo Realpe (atualmente no Famalicão), Michael Estrada, Alan Franco e Júnior Sornoza.
Em 2017, inaugurou-se oficialmente o “Valle de los Sueños”, também conhecido como Centro de Alto Rendimento IDV, complexo de treinos de todas as camadas jovens e equipa sénior. Em 2021, neste mesmo complexo, abriu portas o Estádio Banco Guayaquil, casa oficial do clube, que até então disputava os seus jogos em outros estádios da região.
O crescimento desportivo e o catapultar da marca IDV foi brutal, tendo em conta que o modelo e a filosofia não privilegiavam o sucesso imediato. Doze anos após o clube disputar a 3a divisão nacional (2007), não só já existia um complexo desportivo de primeiro nível (2017), como também já tinham disputado duas finais continentais, vencendo uma delas.
O investimento na infraestrutura foi fulcral neste processo, no entanto, não foi o único aspeto que potenciou o modelo. Durante a etapa previamente descrita, até à atualidade destacam-se nomes de gestores, diretores e treinadores cuja visão alicerçou e projetou a ideia de “un club diferente”, entre eles destacam-se: Santiago Morales (diretor geral), Andoni Bombín (diretor da Academia), Arkaitz Mota (coordenador da prospeção) e Roberto Olabe (treinador e diretor que estruturou a metodologia formativa).
Em 2021, com o técnico português Renato Paiva, o emblema sagrou-se campeão equatoriano pela primeira vez na sua história. Em 2022, com Martín Anselmi, venceu novamente a Copa Sul Americana e no início de 2023 a Recopa Sul Americana (Supertaça continental) frente ao poderoso Flamengo. Em 2025, tornou-se bicampeão equatoriano com o técnico espanhol Javier Rabanal, antigo técnico da formação do clube.
A abrupta emergência desportiva do IDV valorizou continuamente os seus ativos, que captaram pela primeira vez os olhares dos grandes sul-americanos e, posteriormente, dos tubarões europeus. Neste período recente, foram feitos grandes encaixes com atletas de elite: Moisés Caicedo, Piero Hincapié, William Pacho, Joel Ordoñéz e Kendry Páez. O sucesso dos supra referidos levou a que, na atualidade, os clubes europeus procurem o talento do IDV em idades mais precoces, visando uma redução significativa no valor da transferência e uma menor competição com outros emblemas pelos direitos do atleta. Publicamente já estão acordadas várias transferências de atletas entre os 15-18 anos: Justin Lerma (Dortmund), Hólger e Edwin Quintero (irmãos gémeos a caminho do Arsenal), Deinner Ordóñez (Chelsea) e Johan Martinez (Newcastle).
O Projeto IDV detém, atualmente, vários clubes e escolas de formação elite espalhadas pelo globo. Fazem parte do grupo, totalmente ou através de parcerias, o Atlético Huíla (Colômbia), Numancia (Espanha) e Coritiba (Brasil), existem também um acordo a três entre o IDV, Celta de Vigo e Paços de Ferreira. As escolas de elite já abrangem a totalidade do Equador, e no exterior destaque para a Escola IDV em Lima (Perú) e as recém criadas em Nova Iorque e Nova Jérsia.
Atualmente, o sucesso do projeto reflete-se na própria seleção equatoriana. Tradicionalmente, o país marcava presença esporádica nos mundiais e nas fases avançadas da Copa América. No Mundial do Qatar, sete do onze base da seleção passaram pelo clube. Na Qualificação para o Mundial 2026, o Equador terminou na 2a posição, apenas atrás da Argentina, com uns surpreendentes cinco golos sofridos em 18 jornadas. Na última jornada desta Qualificação, o Equador venceu a Argentina por 1-0, num duelo com nove jogadores formados no Independiente del Valle no onze inicial, numa convocatória em que 17 dos 23 foram formados ou passaram pelo clube.
Surgem várias questões para o futuro próximo do oásis do futebol equatoriano:
Conseguirão no futuro resistir ao constante assédio dos tubarões europeus?
Utilizarão estes encaixes para contratar em mercados tendencialmente mais fortes como Argentina e Brasil? Ou para aumentar ainda mais a rede de escolas e prospeção?
Quão longe estarão, realisticamente, do objetivo vencer a Copa Libertadores?
Em forma de conclusão, e como nota, gostaria de deixar uma reflexão pessoal:
HÁ CLUBES QUE TÊM UMA ACADEMIA, MAS SÓ HÁ UMA ACADEMIA QUE POSSUI UM CLUBE.
Artigo escrito por Mike Jata





