Círculo fechado: só entra quem tem nome
A ascensão dos treinadores nas ligas profissionais
Nos últimos anos, a ascensão de novos treinadores em Portugal tem sido reduzida em comparação com outros países da Europa. O treinador português, jovem ou não, é muito bem visto no estrangeiro, mas essa valorização não se reflete dentro do próprio país. É triste e até revoltante ver treinadores em Portugal a comandarem três clubes numa única temporada.
A escassa progressão de novos treinadores no país deve-se a vários fatores pouco debatidos, mas que considero essenciais:
Os cursos de treinadores UEFA de níveis III e IV exigem requisitos excessivos. Para aceder a esses níveis, é necessário ter trabalhado em patamares onde apenas são aceites treinadores com essas mesmas certificações, criando um círculo fechado que protege ex-jogadores e profissionais que passaram grande parte da carreira dentro dos relvados.
A influência de empresários e agentes, que colocam treinadores mediante esquemas de favores.
As SAD e os clubes que escolhem treinadores pelo que foram enquanto jogadores, em vez de pelo mérito ou pela competência como técnicos.
A contratação de treinadores baseada no nome e não no projeto desportivo. Em Portugal, poucos clubes escolhem treinadores de acordo com um plano estruturado, ao contrário do que acontece em equipas de topo na Europa, como Real Madrid, Barcelona, Manchester City ou Atlético de Madrid.
Em Portugal, existem cerca de 80 mil treinadores, mas apenas uma percentagem ínfima tem oportunidades nos escalões principais. E porquê?
Porque continuamos a privilegiar quem já tem oportunidades, em vez de dar espaço a quem realmente precisa. Vemos treinadores a rescindir contrato e, na semana seguinte, já estão à frente de outro clube na mesma divisão, sem que ninguém questione essa falta de critério.
Enquanto não houver regulamentação que impeça os treinadores de orientar três ou quatro equipas numa só época – tal como acontece com os jogadores, que não podem ser inscritos por mais de dois clubes na mesma temporada –, esta situação manter-se-á. Uma alternativa poderia ser um sistema de ranking semelhante ao da arbitragem, onde o desempenho definiria a progressão ou descida de divisão dos treinadores, promovendo um critério mais justo e meritocrático.
Enquanto os clubes e as SAD não perceberem que contratar treinadores apenas pelo nome, sem um projeto sólido, compromete os seus próprios objetivos, e enquanto os cursos de treinadores continuarem inacessíveis para muitos, favorecendo aqueles que já têm influência no meio, a renovação da classe técnica continuará bloqueada.
Fica a pergunta: porque é que, em Portugal, os cursos UEFA de níveis III e IV não estão abertos a todos, como acontece com os níveis I e II?
A resposta é simples: se isso acontecesse, muitos dos treinadores estabelecidos perderiam espaço, a sua imagem perderia valor e, acima de tudo, teriam de se esforçar mais. O treinador jovem, desconhecido, licenciado e à procura de uma oportunidade trabalha, na maioria dos casos, mais e melhor do que muitos dos nomes atualmente presentes na Liga 1.
Texto escrito por Daniel Silva, Treinador


