Afinal, o que é o “Relacionismo”?
Será o SC Braga de Carlos Vicens a sua versão mais moderna?
Há uns dias atrás perguntei-me: “Carlos Vicens é “Relacionista?” Esta pergunta surgiu porque aos meus olhos, em muitos períodos em que vejo o Braga no seu processo ofensivo, vem-me à cabeça algumas semelhanças com o Fluminense de Fernando Diniz. Contudo, faltou-me alguma contextualização acerca desta temática, pois nem todos (eu incluído) estamos assim tão familiarizados com um jogar com princípios tão próprios.
Ou seja, importa em primeiro abordarmos o conceito de Relacionismo. Segundo os Dicionários Porto Editora, o Relacionismo pode partir de duas áreas:
1. Filosofia - doutrina ou posição de quem defende que o espaço só é real mediante as suas relações espaciais com os objetos;
2. Sociologia - doutrina ou posição de quem defende que qualquer ideologia ou sistema de crenças é sempre condicionado pelo contexto sociocultural em que emerge.
No caso, acreditamos que a primeira definição é aquela que mais se enquadra na aplicabilidade ao Futebol.
Assim, partindo de uma abordagem Filosófica, considero o Relacionismo no Futebol como uma Ideia de Jogo que é sustentada numa interpretação partilhada da noção de espaço e consequentemente do seu aproveitamento por parte dos intervenientes, através de relações estabelecidas entre os mesmos (colegas) e os outros objetos que compõem o jogo (adversários).
Há por isso, no meu entender, uma exacerbação daquilo que é o “Espaço” e daquilo que são as “Relações” estabelecidas entre os jogadores. “Relações” essas extremamente complexas e interdependentes que emergem a cada acontecimento do jogo.
Contudo, importa agora introduzir um conceito extremamente importante para o Relacionismo. A valorização da Função em relação à Posição. Entra aqui uma grande diferença entre o Relacionismo, também chamado de Jogo Funcional, para o Jogo de Posição.
Indo de encontro à definição do Jogo de Posição da plataforma Coache’s Voice, o Jogo Posicional existe “Quando uma equipe o adota, os jogadores ocupam posições específicas para tentar criar superioridades através de passes e com a criação de triângulos ou losangos, com o intuito de progredir com a posse bola. Todos os jogadores da equipe devem respeitar regras rígidas sobre os espaços que precisam ser ocupados levando sempre em conta o posicionamento dos companheiros, dos adversários e da bola.”
Ou seja, mesmo o Jogo de Posição mais fluído, criativo e imprevisível acontece, obedecendo muitas vezes a regras pré-estabelecidas ou fugindo a planos colectivos através da liberdade da identidade individual de determinados jogadores.
Já o Jogo Funcional, embora aparentemente anárquico, carece de uma ordem quase transcendental. Só com todos jogadores a pensarem da mesma maneira ao mesmo tempo é possível que esta engrenagem mais que mecânica seja orgânica.
Mais que discutir filosoficamente o conceito deste jogar, o treinador Jamie Hamilton aponta para 7 grandes padrões concretos encontrados no Relacionismo:
• o “toca y me voy” (ou em inglês “pass and move”) - é a deslocação que os jogadores fazem após o passe. O jogador passa e movimenta-se para o espaço vazio, por menor que seja. Se nos recordarmos, por exemplo de Busquets, que muitas vezes passava a bola e ficava exatamente no mesmo espaço, entendemos a diferença. Não é difícil lembrarmo-nos de situações deste género que envolvem Ricardo Horta.
• a tabela (ou o um-dois) - movimento tão típico que, de o ser, deixou de ser visto com tanta regularidade. Há quem lhe chame a finta mais antiga do mundo. E só existe a pares, através da tal relação entre jogadores e entre estes e o espaço. Também não é por acaso que há quem considere o atributo mais importante para o jogador “9” para os Relacionistas (alguém a pensar em Pau Víctor neste momento?).
• “escadinha” - compreendo este termo no sentido da possibilidade de progressão que muitas vezes os jogadores alcançam através do espaço que ocupam em diagonais. Ou seja, através de uma complementaridade de outras padrões como as “tabelas” ou o “toca y me voy”, situações de aparente grande dificuldade para a equipa em posse, fazem aparecer soluções muito dinâmicas, ágeis e orgânicas.
• simulação - no sentido de deixar passar a bola para o colega através da arte do engano. Ou seja, é aquela situação em que o jogador A passa para o jogador B, mas este simula que vai ficar com a bola, deixando-a continuar para o jogador C.
• inclinação - é o momento em que uma equipa tem vários jogadores ao redor da bola sobre um dos corredores, jogando assim como se o campo estivesse inclinado. No caso do Relacionismo de Fernando Diniz isso é bem evidente, fazendo dessa aglomeração uma intencionalidade prévia. No caso do SC Braga de Carlos Vicens, embora a equipa manifeste por vezes essa inclinação, no meu entender, essa aglomeração pode ser mais uma consequência do que uma intencionalidade. Já que para mim a intencionalidade maior parece estar no desbloqueio da estrutura adversária através do corredor central.
• diagonal defensiva - basicamente refere-se ao movimento interior em diagonal que os jogadores mais recuados fazem na preparação da perda. É assim mais um jogador que se “inclina” para o lado da bola, mas com um perfil de preocupações diferente, já que num primeiro momento, este movimento acontece no sentido de encurtamento de espaços para a transição defensiva. Contudo, com este deslocamento interior, o jogador acaba por trazer maiores preocupações defensivas para o seu adversário, sendo mais um nas proximidades do lado da bola, puxando para si adversários enquanto liberta espaço para o único jogador da sua equipa que normalmente assegura a largura do lado contrário.
• “o yo-yo” - é um termo que representa a decisão da bola voltar para o mesmo corredor após ter saído dele. Isto é, muitas vezes assistimos a uma valorização enorme da expressão “vira o jogo”, que mais não é que a procura da manifestação da capacidade de tirar a bola da zona mais pressionada, de um corredor para o outro. Muitas vezes assistimos a isso por princípio, mesmo que as circunstâncias do jogo até coloquem a própria equipa em desvantagem numérica ou qualitativa. No caso do Relacionismo nem sempre isso acontece, já que muitas vezes a equipa, sentindo que tem superioridade numérica e funcional no corredor inclinado, “descongestiona” momentaneamente o jogo através de um passe para o corredor central, voltando a bola em seguida para o corredor inclinado, já que é aí que a equipa sente que tem toda a sua vantagem.
Claro que todos estes padrões não existem no abstrato. Existem em função do jogo. Existem em função de espaços mais ocupados por uns do que por outros, sejam colegas ou adversários. Existe em função de um ponto de partida estrutural que facilita determinadas emergências de comportamentos defensivos e ofensivos. Mas existem sempre no Jogo Funcional.
Julgo ser ainda importante referir que, como podemos ver, são padrões que necessitam de um grande suporte humano por quem os idealiza. Julgo que só alguém com uma confiança tão grande no “outro” consegue potenciar um jogar tão corajoso, solidário e confiante.
Finalizando, e olhando para tudo o que foi escrito e visto, acredito que Carlos Vicens tem um toque de Relacionista. Mesmo não sendo dos mais puristas, julgo que o treinador espanhol do Braga, por intencionalidade prévia ou consequência das circunstâncias, acaba por ajudar a sua equipa a mostrar muito daquilo que é a base do Relacionismo.
Bibliografia:
https://opontofuturo.com/o-que-e-o-relacionismo/
https://es.coachesvoice.com/cv/conceitos-o-jogo-posicional/
Artigo escrito por Zé Pedro Marra





